quarta-feira, 27 de outubro de 2010

Bem longe dos heróis

Minha relação com meu pai sempre foi marcada por muito afeto e pouca conversa. Lembro até de ter escrito uma carta para ele nos primeiros anos de Rio falando sobre isso. Que no meu silêncio nunca deixei de prestar atenção no que ele falava. Uma tarde, no campo do Sport, ele tava comentando sobre jogadores do Sport e revelou algo que eu já testemunhara ao vivo e a cores(rubro-negra): "eu nunca bato palma pra jogador de futebol". E era isso mesmo, jamais o vi aplaudindo entrada de time ou exaltando este ou aquele jogador. Ele ficava muito feliz com as vitória do Leão da Ilha mas sua euforia era contida pelo bigode que era a sua marca registrada.
Por uma conveniente timidez mesclada às minhas convicções pessoais, levei pra vida essa postura discreta diante das pessoas públicas. Minha admiração tem limites porque não existe ninguém perfeito que me faça "babar". Por isso é que fico intrigado quando vejo as pessoas exaltando personalidades como se elas fossem as enviadas especiais de um poder maior. Nunca vi esse tipo de fanatismo pessoal construir nada em sociedade nenhuma.
Pelé foi o maior jogador de futebol do mundo mas sempre se admitiu que ele dissesse ou fizesse bobagens, assim como qualquer ser humano normal, por mais brilhante que fosse na sua área de atuação. Hoje vejo com espanto pessoas inteligentes embasbacadas diante do presidente com um comportamento bem parecido dos evangélicos bebendo as palavras de um pastor. Me espanta que a pior mentira se transforme na melhor verdade desde que seja pronunciada pela boca do idolatrado. Enfim, cada um que ocupe seu lugar no rebanho. Em matéria de admiração, mesmo sem idolatria, vou continuar preferindo o Vinicius que tinha o bom gosto de gostar de mulher, música e poesia e nunca foi visto cercado de bigodudos e barbudos por todos os lados.